
Linux completa 35 anos com 43 milhões de linhas e a IA reescrevendo o ritmo do kernel
A primeira versão pública tinha 10.239 linhas em 1991; a árvore do kernel 7.2, estável desde 16 de agosto de 2026, passa de 43 milhões.
O Linux completou 35 anos em 25 de agosto de 2026. A data marca o dia em que Linus Benedict Torvalds, então estudante de 21 anos da Universidade de Helsinque, publicou no grupo comp.os.minix da Usenet um recado curto avisando que estava escrevendo um sistema operacional gratuito para clones 386(486) AT, algo que ele mesmo classificou como apenas um hobby, sem pretensão de ficar grande e profissional como o GNU. O projeto vinha sendo gestado desde abril daquele ano, e a mensagem terminava pedindo opiniões sobre o que faltava no Minix. Três décadas e meia depois, esse código sustenta nuvem pública, dispositivos Android, clusters de computação de alto desempenho, data centers corporativos, sistemas embarcados e infraestrutura crítica de escala nacional. A distância entre a promessa modesta e o resultado tem número exato. A primeira versão pública, a 0.01, liberada em 17 de setembro de 1991, trazia 10.239 linhas e apenas 66 chamadas de sistema, sem sequer implementar montagem de sistemas de arquivos. A árvore do kernel 7.2, publicada como estável em 16 de agosto de 2026, ultrapassa 43 milhões de linhas. O fator de crescimento passa de 4.200 vezes, e a curva continua subindo dentro de um único ciclo de desenvolvimento.
Da curva de 10 mil linhas ao tronco de 43 milhões
A progressão é documentada versão a versão. O Linux 1.0, de 14 de março de 1994, somava 176.250 linhas distribuídas em 561 arquivos. O 4.1, de julho de 2015, cruzou os 19 milhões. Em dezembro de 2024 o 6.12 registrava 39.819.522 linhas, e no mês seguinte o 6.14-rc1 rompeu a barreira dos 40 milhões com 40.063.856. A medição mais recente, feita sobre o commit dc59e4fea9d8 da tag v7.2-rc1, mostra a escala atual e também por que os títulos divergem entre si: tokei reporta 42.584.526 linhas, scc reporta 42.582.367 e um wc -l bruto sobre todos os arquivos rastreados chega a 43.179.595, espalhados por cerca de 89 mil arquivos. A diferença de aproximadamente 597 mil linhas entre a contagem crua e as ferramentas conscientes de linguagem vem de documentação, metadados, certificados e formatos não reconhecidos. O cloc, referência histórica, subconta o kernel em cerca de 2,17 milhão de linhas por não classificar arquivos Device Tree por padrão. A composição interna explica o volume: C responde por 26.320.472 linhas em 36.910 arquivos, Device Tree por 2.097.441, e Rust já aparece com 473 arquivos e 114.374 linhas de código. Drivers respondem por perto de 60% do total, e a dupla AMDGPU mais AMDKFD sozinha ocupa cerca de 6,35 milhões de linhas, a maior peça isolada da árvore. Entre o 7.1 final e o 7.2-rc1, o kernel ganhou 562.849 linhas, alta de 1,3% em um único ciclo.
Por que crescer virou condição de sobrevivência
Crescimento nesse ritmo não é acúmulo passivo. O 7.1 iniciou a remoção do suporte aos processadores i486, apagando mais de 140 mil linhas de código obsoleto, incluindo controladoras PCMCIA antigas e drivers ISDN, e o 7.2 seguiu com a limpeza de componentes x86 legados. Em 3 de agosto de 2026, Greg Kroah-Hartman enviou um patch eliminando o driver Moxa Intellio, 2.148 linhas escritas em 1999 para hardware descontinuado pelo fabricante em 2017, com a remoção enfileirada para o ciclo 7.3. O saldo positivo vem de hardware novo, arquiteturas novas e defesa. A adoção de Rust nasceu dessa pressão: memória insegura responde pela maior fatia histórica das vulnerabilidades do kernel, tese levada ao Linux Security Summit já em 2019. O código Rust entrou na mainline no 6.1, perdeu o rótulo de experimental por consenso no Maintainers Summit de dezembro de 2025, em Tóquio, e o Linux 7.0, de 12 de abril de 2026, foi o primeiro a sair sem essa marcação. A segunda pressão é mais recente. Torvalds fechou a discussão de política em julho declarando que o Linux não é um projeto anti-IA, e o 7.2-rc7, de 9 de agosto, chegou com mais de 400 correções assinadas por mais de 230 colaboradores, volume que ele atribuiu a ferramentas de modelos de linguagem varrendo o código e achando defeitos que revisores humanos despriorizaram por anos. Ele resumiu o cenário como o novo normal, sem esconder o incômodo com o tamanho. A escala humana acompanha: o 6.18 bateu recorde com 2.134 desenvolvedores em um único lançamento, e a estimativa COCOMO calculada sobre a árvore atual coloca o custo de reconstruir esse código do zero em cerca de 1,47 bilhão de dólares, com 595 pessoas trabalhando por quase 220 meses.
O que já está disponível
O Linux 7.2 saiu estável em 16 de agosto de 2026, no prazo previsto e sem necessidade de uma oitava semana de testes, ainda que a reta final tenha exigido reversões tardias no escalonamento do DRM. O pacote traz Cache Aware Scheduling, o protocolo USB4STREAM desenvolvido pela Intel, HDMI 2.1 FRL no AMDGPU, melhorias amplas de drivers AMD e Intel e suporte inicial ao Apple M3. A versão vai alimentar o Ubuntu 26.10 e outras distribuições do próximo ciclo. A janela de merge do 7.3 já está aberta, com cerca de 40 pull requests na fila de revisão, enquanto as séries LTS 6.12 e 6.6 continuam recebendo atualizações semanais. O código-fonte fica no kernel.org e no repositório Git de Torvalds. Quem quiser reproduzir a contagem pode clonar a árvore com --depth=1, cerca de 1,5 GB contra 5 GB do clone completo, e rodar tokei ou scc no diretório raiz.

Sandoval Almeida
Executivo de tecnologia, cientista da computação e especialista em inteligência artificial aplicada a negócios. Com mais de duas décadas de experiência em desenvolvimento de software, segurança da informação e arquitetura de sistemas, atua na criação de plataformas SaaS e soluções de IA voltadas à automação, análise de dados e transformação digital. É fundador de iniciativas tecnológicas nas áreas de IA, healthtech e análise operacional
Receba as Notícias no Seu Email
Cadastre-se gratuitamente e receba nosso resumo diário das principais notícias.
Ao cadastrar, você concorda em receber emails informativos. Você pode cancelar a qualquer momento.
Notícias Relacionadas
TecnologiaSpaceX compra a Cursor por US$ 60 bilhões e fecha a maior aquisição de startup da história
SpaceX adquire a Anysphere, dona da Cursor, em deal all-stock de US$ 60 bi anunciado em 16 de junho. Fechamento previsto para o terceiro trimestre de 2026.
TecnologiaMeta e AMD fecham acordo bilionário para chips de IA
Meta e AMD oficializaram um acordo multianual para infraestrutura de IA com design conjunto de aceleradores MI450 e mecanismo que pode converter compra de chips em ações.
TecnologiaSpaceX absorve xAI e forma gigante avaliado em US$ 1,25 tri
SpaceX absorveu a xAI em um acordo avaliado em US$ 1,25 trilhão no início de fevereiro de 2026, formando uma plataforma integrada de IA, satélites e infraestrutura orbital.

